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A ilusão do falso empreendedorismo que nos leva a uma armadilha social profunda, que começa na criação submissa dos pais.

 

Dos tantos absurdos que escutamos no dia a dia, de que o “brasileiro não quer mais trabalhar,” devido ao bolsa família; “o meu político rouba mais faz”; “agora sou um empreendedor ou microempreendedor, pois detesto ser celetista”; “entrei na era da pejotização”, enfim, poderíamos elencar vários exemplos de absurdos e incongruências, mas preferimos somar a estes, somente mais um: as entidades que representam os motoristas de aplicativos, entregadores e afins, consideram a proposta de lei complementar (PLP), inadequada, insuficiente e acham que irão perder muito com a proposta. Ora, eles já estão perdendo. Por pior, precária e insuficiente que seja a proposta, com certeza eles iriam ficar numa situação melhor da que estão hoje. Iriam avançar em ganhos reais e sociais. Aqui, vale aquela máxima, de que o ótimo é inimigo do bom.

A discussão sobre o PLP, foi realizada em março de 2024, e à época, era comum presenciarmos os profissionais de aplicativos e entregadores, na sua maioria, pronunciarem-se fervorosamente contra a proposta, principalmente sob a alegação de que só iriam pagar mais impostos. O que, diga-se de passagem, não era verdade, iriam, sim, contribuir para a previdência, o que é justo e relevante, não esquecendo, entretanto, que a empresa patronal também iria contribuir com a sua contrapartida para fins previdenciários, como rege a lei para os demais empregadores celetistas.

Na outra ponta desse enredo, temos a câmara federal, que teve uma boa parcela dos seus representantes, discursando contra a proposta, ao mesmo tempo, em que outro grupo fazia recortes de vídeos e divulgação de informações não verídicas, sempre com o pano de fundo no credo de que aquela proposta seria ruim para os profissionais de aplicativos, entregadores e afins, ou, uma espécie de averso do inverso da realidade do tema aventado. Esqueceram-se, os nobres deputados, que o nobre papel de qualquer parlamento, é entender propostas, verificar se elas atendem de fato às necessidades da população ou categoria, melhorá-las e aprová-las para o bem do povo. Mas eles não agiram assim. Preferiram politizar a questão e ladear com aquela máxima do “quanto pior melhor”, não importando a quem, desde que não seja ele.

 

A ilusão rasa de que não ter “chefe”; não ter que cumprir horários engessados; ou simplesmente trabalhar a seu bel-prazer, pode levar a uma nuvem que embaça a percepção da dura realidade dos fatos.  No caso específico dos motoristas de aplicativos e a estes somamos também os entregadores e afins, eles se autodenominam como senhores de si, e por tanto, só dependem deles mesmos, o que infelizmente não é verdade. Confundem o empreender, como sendo donos de si, quando na realidade, a aventura de empreender é exatamente o contrário. O verdadeiro empreendedor sempre dependerá de colaboradores, de clientes ou de público, como preferirem, enfim, todos os stakeholders que estão no seu entorno, além é claro, do talento, aptidão, networking e troca de experiências, foco e determinação, bom treinamento e outros tantos que os mentores costumam utilizar para nos passar a impressão de que estão atualizados. Em um outro ramo desta mesma ponta, temos as influências, normalmente nefastas, dos tais coaches; assim como os pastores, que costumeiramente, ao tratar do tema se empolgam com a expressão: “prosperar”. Detalhe: se você não prosperar, com certeza é porque você não teve fé o suficiente ou é um incompetente. Lembremos que a maioria dos coaches,  não optou por ser empreendedora, ela é ou foi, tão vítima quanto seus aprendizes. Em suma, os nossos motoristas de aplicativos, entregadores e afins, vivem uma aventura e uma ilusão, sempre achando que amanhã aparecerá uma nova oportunidade e as coisas irão melhorar. E assim o tempo vai passando, eles vão ficando mais afastados do mercado de trabalho, vão envelhecendo e se debilitando, até ficarem totalmente não competitivos, pois não tiveram tempo para se capacitarem e não se perceberam escravos invisíveis úteis. Não contribuíram para a previdência e não têm plano de saúde, o que os farão engrossar as filas do SUS e reivindicar o BPC, quando se virem sem condições de continuar “empreendendo” e alugando a sua saúde e o seu corpo forte, quando então, perceberão que além de não terem feito uma poupança previdenciária, também não pouparam a saúde. Uns perderam uma perna aqui; outros, um braço por ali e um assalto acolá, deixou alguém traumatizado. A carne dos seus corpos alimentaram o asfalto das via públicas, seu único aconchego e amigo fiel. O único e último abraço.  Nunca, terão visto o Sr. Uber e companhia e muito provavelmente botarão a culpa no governo, pelas condições em que se encontram. Provavelmente serão procurados por advogados aproveitadores e políticos oportunistas, que lhes oferecerão soluções mágicas, tirando-lhes o pouco que ainda têm. Nós, do lado de cá, teremos que continuar a pagar mais impostos, para poder mantê-los no BPC e pagar a conta do SUS. Eles, do lado de cima, aqueles, cujos salários, rendas, ganhos e penduricalhos somam altas cifras, continuarão a se recusar a “pagar mais impostos”, por entenderem, que não lhes compete, sustentar programas sociais para beneficiar “vagabundos”, nas palavras deles. Lembrando que eles, são os mesmos que não aprovaram o PLP e que subiram hashtags com notícias falsas sobre os objetivos e consequências da lei. Podemos apostar que muitos dos profissionais de aplicativos, receberam tais mentiras, também, em grupos de WhatsApp das igrejas que frequentam e orientados por falsos pastores, que também, não pagam impostos.

Voltando para a nossa realidade, estima-se que 32,5 milhões de profissionais no Brasil atuam informalmente como autônomos, ou seja, 31,7% de um total de 102,5 milhões de empregados, segundo o IBGE. Eles, os que estão no universo dos 32 milhões, formam um batalhão de iludidos, incentivados por pessoas duvidosas e, claro, também, por interesses rasos. São desalentados, mas principalmente, são alimentados pela ignorância das armadilhas em que caem, dia após dia. Formam um exército que lutam a luta dos outros, sob a ilusão de que estão “correndo atrás”, quando na verdade, estão, sim, muito atrás, mas é da realidade da vida, dos fatos e do bom senso. Carregam as malas dos bandidos que os açoitam e ainda os chamam de excelência.

Talvez alguns modismos também tenham influenciado parte da última geração que entrou e está entrando no mercado; acharam bonito expressões como freelancer; coach, Gig Economy. Talvez alguns, mais letrados e considerados tecnicamente mais entendidos, dirão que isso não passa de trabalhos independentes ou economia sob demanda, o que no primeiro momento nos soaria como algo além de bonito, muito importante, desafiador, pós-moderno e por que não, chique. Mas nada disso se sustenta. São apenas palavras desconexas do bom sentido e representatividade do que efetivamente está ocorrendo. O que temos como fatores principais dessa geração de jovens e uma pequena parcela da turma que já se aproxima da fase de idosos, que não tiveram oportunidade de frequentar boas escolas; as famílias que delegaram a boa educação para estas mesmas escolas; tem também a turma que frequentou boas escolas, ou pensava serem boas escolas, só porque eram particulares, mas também não souberam aproveitar as “oportunidades”. Tudo isso, nos parece fazer mais sentido, entender que sim, em maior ou menor proporção, influenciou a esse grupo de pessoas, a caíram nas armadilhas da precarização do trabalho e se transformaram em desgarrados da geração Y e inocentes da geração Z, ou talvez, a hiperconectividade desesperançada da geração alfa, que apesar de não saberem usar uma impressora, talvez sejam capazes de dirigir um veículo de aplicativo. Afinal, temos até baby boomers, ajudando os desgarrados e os inocentes na difícil labuta da sobrevivência. Enquanto eles se empolgavam com termos em inglês, sem saber inglês, porque, de novo,  não tiveram oportunidade ou porque foram preguiçosos; enquanto inúmeras empresas usam métodos arcaicos de seleção de trabalhadores e os inserem em trabalhos anômalos ao de escravidão; enquanto o congresso aprovava leis contra o trabalhador e pró-empresas, como a reforma trabalhista de 2017, que tirou direitos dos trabalhadores, rasgando algumas páginas da CLT e engordou mais a coluna de lucros dos empresários, os mesmos que pagaram os lobistas para “incentivar” a aprovação da lei; enquanto os filhos da turma do andar de cima, se capacitam em escolas de alto nível, pago com o dinheiro originado por leis como a já citada reforma trabalhista; enquanto eles se iludem com o tal empreendedorismo e travestem-se de microempresários, a realidade começa a bater-lhes a porta, e ao abri-la, se deparam com a idade avançada abraçando-lhes, a saúde cobrando-lhes os maus-tratos ou o carro cem por cento elétrico, com a vida útil da bateria atingida, ou seja, um verdadeiro caos para uma geração mais fragilizada.

É, portanto, primordial pensar em mudança de comportamento. A começar, com o comportamento dos pais, que se igualam aos filhos, não sabem se impor, se deixam tratar como amiguinhos e não sabem agir com a autoridade de quem tem que guiar os rumos de suas crias. E acabam por criar criaturas inseguras e fracas, acostumadas a ter tudo sem lutar por elas. São os tais pais que não ensinaram aos filhos a sequer lavar o seu próprio copo, a limpar seu banheiro e ajudar nas tarefas do dia a dia de uma casa, para sermos mais simplistas. Criaram filhos que no primeiro insucesso no ENEM, eles já os encaminham para uma faculdadezinha particular e acham que eles serão felizes para sempre; ou, os deixam ludibriar-se com uma série de diagnósticos de sopinha de letras, tais como: TDAH, TEA, TOD, DI, TOC, etc. Aí, passam a ser vítimas de si mesmos, com uma superproteção que só os enfraquecem. Viraram coadjuvantes nas atitudes e protagonistas na dependência de outrem, além da dos pais. Enfim, a ilusão do falso empreendedorismo que os leva a uma armadilha social profunda, persiste, criando profissionais frustrados e desalentados.

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