{"id":317,"date":"2024-12-25T12:12:41","date_gmt":"2024-12-25T12:12:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/?p=317"},"modified":"2024-12-25T12:12:41","modified_gmt":"2024-12-25T12:12:41","slug":"me-da-dez-fablison","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/?p=317","title":{"rendered":"Me d\u00e1 dez \u2014 Fablison!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Fablison tinha apenas seis anos de idade; mas tinha tamanho de menino de quatro anos; parecia uma diferen\u00e7a irrelevante, mas n\u00e3o era. Era apenas uma crian\u00e7a, de dois, de quatro ou seis anos. Ele tinha os l\u00e1bios finos, quase um risco e cabelos de manga chupada, o que o tornava ainda mais novo do que os seus parcos seis anos e claro, muito mais feio e estigmatizado pelas circunst\u00e2ncias da vida; vida que n\u00e3o teve compaix\u00e3o e clem\u00eancia com a pequena crian\u00e7a; mas, que j\u00e1 tinha flu\u00eancia nas putarias da vida e principalmente, das suas grandes dificuldades, injusti\u00e7as, emo\u00e7\u00f5es, necessidades e falta de presen\u00e7a dos pais. Era muito conhecido no bairro do Monte Castelo, principalmente no chamado miolo do Monte Castelo, que significava, o que existia de pior, em todos os sentidos. Moleques que em tenra idade j\u00e1 faziam papel de avi\u00e3ozinho para os traficantes de meia tigela e covardes; faziam mandados por qualquer tost\u00e3o; e sofriam as consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias mazelas. No caso de Fablison, que aprendera desde cedo (n\u00e3o esque\u00e7amos que ele tinha apenas seis anos) a valorizar seu trabalho e esfor\u00e7o, fosse ele o que fosse; fosse ele como fosse. Quando Minoara, mulher de Marcinho, moradores da esquina da rua Zito Batista; e que ficava em frente a pra\u00e7a, local em que de tudo acontecia, pedia para Fablison fazer alguma coisa ou algum mandado; Fablison, sempre se prontificava a cumprir o pedido, mas sempre dizia:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 A senhora me d\u00e1 dez?<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ele usava essa frase fazendo alus\u00e3o a dez centavos de cruzeiros, que ele achava por bem, economizar algumas palavras, certo de que todos iriam entend\u00ea-lo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O problema \u00e9 que ele a repetia muito; j\u00e1 que com ou sem algu\u00e9m pedindo que ele fizesse alguma coisa, ele dizia a tal frase do \u201cme d\u00e1 dez\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas existia uma \u00fanica pessoa a quem ele n\u00e3o dizia a famigerada frase. Era a filha de Marcinho, de nome Jessiane. Ele n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pedia os dez centavos, como sempre comprava na quitanda da pra\u00e7a, o bombom preferido dela. Ele era fascinado pela Jessiane. Era como se irm\u00e3os fossem. Empatia m\u00fatua e de gra\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Claro que a turma do bairro, puxado pela turma que frequentava a pra\u00e7a e mais especificamente aqueles que usavam a quadra de esportes, o apelidaram de\u00a0<em>\u2014 me d\u00e1 dez.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Certo dia, Me d\u00e1 Dez apareceu na casa de Minoara, com um balde cheio de filhotes de gatos rec\u00e9m-nascidos; eram oito; e os ofereceu a Marcinho, \u00a0que o tratou mal e que por um mix de vingan\u00e7a e inoc\u00eancia, quase beirando a falta de bom senso, Me d\u00e1 Dez deixara os oito filhotes de gato dentro do terra\u00e7o da casa de Minoara e Marcinho, o que provocou um desconforto geral, no tocante a odor e muitos miaus. Marcinho ent\u00e3o foi at\u00e9 a casa de me d\u00e1 dez e disse-lhe que uma pessoa o estava procurando e que queria comprar todos os gatos. Me d\u00e1 Dez, em sua santa inoc\u00eancia acreditou e, como um gato, correu at\u00e9 a casa de Marcinho e recolheu os oito filhotes; recolocando-os\u00a0 no balde e foi esperar o tal pretendente na pra\u00e7a, conforme havia orientado Marcinho. Ap\u00f3s mais de tr\u00eas horas de espera, sob sol intenso e um pux\u00e3o de orelha que Minoara dera em Marcinho por fazer o menino de bobo, me d\u00e1 dez foi at\u00e9 a porta de Marcinho e bradou:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Porra Marcinho, pelado filho da puta; cad\u00ea o comprador? \u2014\u00a0\u00a0<\/em>Explique-se que pelado, era um dos muitos apelidos de Marcinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Marcinho explicou que ele devia ter tido algum problema e que era melhor ele continuar esperando l\u00e1 na pra\u00e7a. Mas me d\u00e1 dez n\u00e3o acreditou em Marcinho e esperou ele se afastar e voltou a jogar os gatos no terra\u00e7o. Mas, antes de fazer isso, chamou Marcinho de novo, que ao se voltar para o port\u00e3o, se deparara com me d\u00e1 dez com a pirrolinha de fora, empunhada com a m\u00e3o direita, e gritando para Marcinho:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Olha aqui Marcinho pelado; pro priquito da tua m\u00e3e filho da puta. Aproveita e me d\u00e1 dez!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Marcinho sorriu e n\u00e3o deu mais aten\u00e7\u00e3o a me d\u00e1 dez.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No dia seguinte, um doming\u00e3o; Marcinho pelado recebeu em sua casa seu sobrinho, dois anos mais novo que me d\u00e1 dez. Ele queria se vingar do moleque, pelo desaforo que dissera no dia anterior; inclusive por ter mostrado a pirrolinha para sua filha; e informou ao seu sobrinho que me d\u00e1 dez ficava muito brabo quando o chamavam de passa a marcha. O sobrinho embora no in\u00edcio, tenha ficado meio receoso, pois sabia que me d\u00e1 dez era um moleque criado na rua e poderia ser muito agressivo, mas resolveu arriscar. Me d\u00e1 dez estava sentado com sua turma na uma escadaria do bairro e tinha acabado de entregar bombons para Jessiane; e o sobrinho de Marcinho pelado ao se aproximar da escadaria gritou.\u00a0<em>\u2014 Passa a marcha, me d\u00e1 dez.\u00a0<\/em>\u2014 e bateu em retirada. \u2014 Momento em que me d\u00e1 dez sai em disparada em dire\u00e7\u00e3o ao sobrinho de Marcinho berrando:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Vem c\u00e1 filho da puta. Vem c\u00e1 se tu \u00e9 homem caralho. Aproveita e manda o teu tio pelado tomar no cu. \u2014 <\/em>Nesse mesmo momento a turma da escada gritava murmurando palavras de incentivo e sacanagens com me d\u00e1 dez.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De repente o sobrinho de Marcinho sobe na motoca pilotada pela Jessiane e os dois saem sorrindo e em disparada. Aquilo foi como uma facada no peito de Me d\u00e1 Dez. Sua irm\u00e3 de cora\u00e7\u00e3o aprontara para cima dele. Em sua mente ele via apenas o sorriso de Jessiane. Conhecera pela primeira vez a sua primeira grande frusta\u00e7\u00e3o, embora ele n\u00e3o soubesse bem que tipo de sentimento se passava em sua mente. Era muito novo para saber o que sentia, mas o que importava era que aquilo cortava-lhe o peito. Mas me d\u00e1 dez era muito novo e inocente para sentir rancor, raiva ou julgar algu\u00e9m puro como ele percebia Jessiane; e no dia seguinte ele estava l\u00e1 oferecendo seus pr\u00e9stimos pelos famigerados dez centavos de cruzeiros, menos para Jessiane, a quem ele n\u00e3o cobrava nada e ainda a presenteava com bombons do seu agrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A vida correu e, com ela, decorreram-se nove anos. Era um domingo com cara de domingo; daqueles dias sem pretens\u00e3o, sem desejos e ensejos; um dia morno, parco, pardo; quase sem gra\u00e7a. Me d\u00e1 dez estava em um barzinho em um canto qualquer do bairro Monte Castelo. Ele j\u00e1 fizera pela madrugada, o seu papel de avi\u00e3ozinho dos chefes locais do tr\u00e1fego. J\u00e1 havia passado na casa de Jessiane e levado para ela, seus bombons preferidos, agora com a inclus\u00e3o de chocolates. Embora ele j\u00e1 n\u00e3o fosse t\u00e3o puro, pois nesse mesmo domingo ele havia socorrido Jessiane, que ao voltar da feira com a sua m\u00e3e, estava sendo abordada agressivamente por um grupo de tr\u00eas moleques de aproximadamente dezesseis a dezessete anos; e a quem me d\u00e1 Ddez, ao observar tamanho absurdo, correra em socorro a Jessiane, que aproveitando o embalo da carreira, deu pernadas a tr\u00eas por quarto e voadoras nos peitos dos tr\u00eas meliantes, que os fizeram bater em retirada, sem nada levar da m\u00e3e e da filha. Mesmo assim, me d\u00e1 dez saca de uma arma e mira em dire\u00e7\u00e3o aos tr\u00eas fuj\u00f5es covardes; mas ele para ao ouvir um grito de Jessiane, em tom altivo:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u2014 Fablison, n\u00e3o fa\u00e7a isso! \u2014 Ele prontamente olha para ela, baixa os olhos e guarda a arma, e batendo em retirada, balbuciou para si mesmo:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00ad\u2014 Seriam menos tr\u00eas ratos, filhos da puta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dever cumprido, sentimento de orgulho e bem-estar por defender sua amiga e irm\u00e3 de alma e, de lambuja, a dona Minoara, de quem ele tanto recebera aten\u00e7\u00e3o, carinho e muitos dez centavos. Naquele domingo ele estava saboreando uma cervejinha gelada, para amenizar o calor excessivo da regi\u00e3o e, claro, molhando e alegrando a palavra, como sempre costumava a fazer. Naquele dia, por tudo que aconteceu, ele estava especialmente alegre; o vento lhe lambia o rosto; e apesar daquele calor, a sensa\u00e7\u00e3o era muito boa. Embora n\u00e3o tivesse a devida consci\u00eancia, ele estava em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Me d\u00e1 dez estava sentado de frente para a rua. Veio em sua mente, o filho da puta do Marcinho pelado e claro, da sua filha, Jessiane. Lembrara tamb\u00e9m dos seus pais, de quem nunca teve apoio, nem uma palavra de incentivo. Achava que Minoara tinha muito mais considera\u00e7\u00e3o por ele, do que sua m\u00e3e e seu pai. Ela, que tantas vezes o apoiou, chamou-lhe a aten\u00e7\u00e3o pelas besteiras que fazia e dizia, tentando dar-lhe um pouco de orienta\u00e7\u00e3o. O carro era preto e parou em frente ao bar; no seu interior, tr\u00eas elementos que n\u00e3o fizeram quest\u00e3o de se esconder e que aparentavam ter de dezesseis a dezessete anos. Do ve\u00edculo sa\u00edram dois dos moleques que empunhavam um tr\u00eas oit\u00e3o cada um e o descarregaram no peito de me d\u00e1 dez.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Naquele resto de dia n\u00e3o houve mais alegria; n\u00e3o haveria mais avi\u00e3ozinho; n\u00e3o haveria mais discord\u00e2ncia; n\u00e3o haveria mais compra de bombons para Jessiane; n\u00e3o haveria mais jogo de futebol no campinho do lix\u00e3o e n\u00e3o xingaria mais o Marcinho, por alguma putaria que ele fizesse; n\u00e3o haveria mais fome nem riscos; ningu\u00e9m zombaria mais da sua condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel; n\u00e3o haveria tamb\u00e9m xingamentos de seus pais, chamando-o de vagabundo. N\u00e3o haveria o riso da inoc\u00eancia ou da manga\u00e7\u00e3o. Havia sim, uma multid\u00e3o no seu entorno e muitas frases soltas, com e sem sentido, enquanto olhavam para o seu corpo ensanguentado e um olhar terno, de quem olha para o nada, nada que foi o que ele sempre teve com fartura em sua breve e miser\u00e1vel vida:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Sabia que acabar nisso!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Sempre foi um marginal, desde menino!<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>\u2014 Ele est\u00e1 com carinha de anjo.<\/em><\/p>\n<p>A vida de Fablison, o Me d\u00e1 dez, perecera em um final de manh\u00e3 de domingo, como a provar que a vida, sob uma determinada \u00f3tica, em um bairro largado por todos e desprovido de tudo, valia menos do que dez centavos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fablison tinha apenas seis anos de idade; mas tinha tamanho de menino de quatro anos; parecia uma diferen\u00e7a irrelevante, mas n\u00e3o era. Era apenas uma crian\u00e7a, de dois, de quatro ou seis anos. Ele tinha os l\u00e1bios finos, quase um risco e cabelos de manga chupada, o que o tornava ainda mais novo do que os seus parcos seis anos e claro, muito mais feio e estigmatizado pelas circunst\u00e2ncias da vida; vida que n\u00e3o teve compaix\u00e3o e clem\u00eancia com a pequena crian\u00e7a; mas, que j\u00e1 tinha flu\u00eancia nas putarias da vida e principalmente, das suas grandes dificuldades, injusti\u00e7as, emo\u00e7\u00f5es, necessidades e falta de presen\u00e7a dos pais. Era muito conhecido no bairro do Monte Castelo, principalmente no chamado miolo do Monte Castelo, que significava, o que existia de pior, em todos os sentidos. Moleques que em tenra idade j\u00e1 faziam papel de avi\u00e3ozinho para os traficantes de meia tigela e covardes; faziam mandados por qualquer tost\u00e3o; e sofriam as consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias mazelas. No caso de Fablison, que aprendera desde cedo (n\u00e3o esque\u00e7amos que ele tinha apenas seis anos) a valorizar seu trabalho e esfor\u00e7o, fosse ele o que fosse; fosse ele como fosse. Quando Minoara, mulher de Marcinho, moradores da esquina da rua Zito Batista; e que ficava em frente a pra\u00e7a, local em que de tudo acontecia, pedia para Fablison fazer alguma coisa ou algum mandado; Fablison, sempre se prontificava a cumprir o pedido, mas sempre dizia: \u2014 A senhora me d\u00e1 dez? Ele usava essa frase fazendo alus\u00e3o a dez centavos de cruzeiros, que ele achava por bem, economizar algumas palavras, certo de que todos iriam entend\u00ea-lo. O problema \u00e9 que ele a repetia muito; j\u00e1 que com ou sem algu\u00e9m pedindo que ele fizesse alguma coisa, ele dizia a tal frase do \u201cme d\u00e1 dez\u201d. Mas existia uma \u00fanica pessoa a quem ele n\u00e3o dizia a famigerada frase. Era a filha de Marcinho, de nome Jessiane. Ele n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o pedia os dez centavos, como sempre comprava na quitanda da pra\u00e7a, o bombom preferido dela. Ele era fascinado pela Jessiane. Era como se irm\u00e3os fossem. Empatia m\u00fatua e de gra\u00e7a. Claro que a turma do bairro, puxado pela turma que frequentava a pra\u00e7a e mais especificamente aqueles que usavam a quadra de esportes, o apelidaram de\u00a0\u2014 me d\u00e1 dez. Certo dia, Me d\u00e1 Dez apareceu na casa de Minoara, com um balde cheio de filhotes de gatos rec\u00e9m-nascidos; eram oito; e os ofereceu a Marcinho, \u00a0que o tratou mal e que por um mix de vingan\u00e7a e inoc\u00eancia, quase beirando a falta de bom senso, Me d\u00e1 Dez deixara os oito filhotes de gato dentro do terra\u00e7o da casa de Minoara e Marcinho, o que provocou um desconforto geral, no tocante a odor e muitos miaus. Marcinho ent\u00e3o foi at\u00e9 a casa de me d\u00e1 dez e disse-lhe que uma pessoa o estava procurando e que queria comprar todos os gatos. Me d\u00e1 Dez, em sua santa inoc\u00eancia acreditou e, como um gato, correu at\u00e9 a casa de Marcinho e recolheu os oito filhotes; recolocando-os\u00a0 no balde e foi esperar o tal pretendente na pra\u00e7a, conforme havia orientado Marcinho. Ap\u00f3s mais de tr\u00eas horas de espera, sob sol intenso e um pux\u00e3o de orelha que Minoara dera em Marcinho por fazer o menino de bobo, me d\u00e1 dez foi at\u00e9 a porta de Marcinho e bradou: \u2014 Porra Marcinho, pelado filho da puta; cad\u00ea o comprador? \u2014\u00a0\u00a0Explique-se que pelado, era um dos muitos apelidos de Marcinho. Marcinho explicou que ele devia ter tido algum problema e que era melhor ele continuar esperando l\u00e1 na pra\u00e7a. Mas me d\u00e1 dez n\u00e3o acreditou em Marcinho e esperou ele se afastar e voltou a jogar os gatos no terra\u00e7o. Mas, antes de fazer isso, chamou Marcinho de novo, que ao se voltar para o port\u00e3o, se deparara com me d\u00e1 dez com a pirrolinha de fora, empunhada com a m\u00e3o direita, e gritando para Marcinho: \u2014 Olha aqui Marcinho pelado; pro priquito da tua m\u00e3e filho da puta. Aproveita e me d\u00e1 dez! Marcinho sorriu e n\u00e3o deu mais aten\u00e7\u00e3o a me d\u00e1 dez. No dia seguinte, um doming\u00e3o; Marcinho pelado recebeu em sua casa seu sobrinho, dois anos mais novo que me d\u00e1 dez. Ele queria se vingar do moleque, pelo desaforo que dissera no dia anterior; inclusive por ter mostrado a pirrolinha para sua filha; e informou ao seu sobrinho que me d\u00e1 dez ficava muito brabo quando o chamavam de passa a marcha. O sobrinho embora no in\u00edcio, tenha ficado meio receoso, pois sabia que me d\u00e1 dez era um moleque criado na rua e poderia ser muito agressivo, mas resolveu arriscar. Me d\u00e1 dez estava sentado com sua turma na uma escadaria do bairro e tinha acabado de entregar bombons para Jessiane; e o sobrinho de Marcinho pelado ao se aproximar da escadaria gritou.\u00a0\u2014 Passa a marcha, me d\u00e1 dez.\u00a0\u2014 e bateu em retirada. \u2014 Momento em que me d\u00e1 dez sai em disparada em dire\u00e7\u00e3o ao sobrinho de Marcinho berrando: \u2014 Vem c\u00e1 filho da puta. Vem c\u00e1 se tu \u00e9 homem caralho. Aproveita e manda o teu tio pelado tomar no cu. \u2014 Nesse mesmo momento a turma da escada gritava murmurando palavras de incentivo e sacanagens com me d\u00e1 dez. De repente o sobrinho de Marcinho sobe na motoca pilotada pela Jessiane e os dois saem sorrindo e em disparada. Aquilo foi como uma facada no peito de Me d\u00e1 Dez. Sua irm\u00e3 de cora\u00e7\u00e3o aprontara para cima dele. Em sua mente ele via apenas o sorriso de Jessiane. Conhecera pela primeira vez a sua primeira grande frusta\u00e7\u00e3o, embora ele n\u00e3o soubesse bem que tipo de sentimento se passava em sua mente. Era muito novo para saber o que sentia, mas o que importava era que aquilo cortava-lhe o peito. Mas me d\u00e1 dez era muito novo e inocente para sentir rancor, raiva ou julgar algu\u00e9m puro como ele percebia Jessiane; e no dia seguinte ele estava l\u00e1 oferecendo seus pr\u00e9stimos<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"class_list":["post-317","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=317"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":320,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/317\/revisions\/320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=317"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=317"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vicentefreire.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=317"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}